Qual o perigo da idolatria? Bom, certamente,
todos nós temos afinidades com personalidades famosas de diferentes áreas de
cultura e conhecimento. Personalidades famosas são assim reconhecidas por serem
geniais em pelo menos uma atividade e/ou tema. Mas essas pessoas famosas, em
geral, não dão opiniões em apenas assuntos e atividades nas quais são
geniais.
A consciência não tem humildade, ela não
deixa de gerar uma opinião acerca de algum assunto, mesmo sendo ignorante sobre
ele. Por exemplo, posso ser bem entendido em política e economia, mas ignorante
em espiritualidade e artes. Independente do grau de conhecimento que tenho
sobre cada fato , irei gerar uma opinião sobre tudo o que vejo ou ouço. Levando
em sequência este exemplo, algumas pessoas iriam inicialmente me admirar como
referência de conhecimento em política ou economia e, depois de simpatizarem e
até reverenciarem a minha pessoa, podem facilmente levar em consideração minha
opinião sobre espiritualidade e artes, o que seria um equívoco da parte delas,
já que serão induzidas a concordar com minha opinião por um automatismo criado
por situações anteriores e diferentes.
É importante raciocinar, refletir e
questionar tudo, mesmo aquilo dito por pessoas que já ganharam sua admiração e
confiança. Devido ao tempo escasso de nossas vidas humanas, não é possível ser
mestre e se aprofundar em todas as áreas do conhecimento, sendo já difícil e
digno de admiração aquele que consegue se tornar um mestre de uma única área do
conhecimento. Ter consciência desta limitação humana é necessária para sabermos
que é natural que nossos “ídolos”: Líderes morais, mestres espirituais,
doutores, professores e gênios autodidatas podem cometer erros grotescos e
gerar opiniões ignorantes e superficiais quando opinam fora da área de
conhecimento que dominam.
O cérebro processa tudo ao nosso redor, tanto
aquilo que temos um contato profundo, quanto aquilo que temos um contato
superficial. Em toda as pessoas existem conhecimentos provindos de contato
profundo com o objeto de reflexão e “conhecimentos” provindos de contatos
superficiais com o objeto reflexão. Aí está a razão para todos nós termos
pontos de extrema ignorância: Não conseguimos ter um contato profundo com todas
as áreas do saber. Então, mesmo sendo geniais em algumas coisas, seremos
medíocres em outras.
Você certamente admira ou passará a admirar intelectualmente
alguma pessoa em razão de algum conhecimento profundo de algum assunto que ela lhe expressar,
embora ela também tenha “conhecimentos” superficiais sobre outros assuntos que
também eventualmente podem ser expressados.
É muito confortável encontrar alguém em que
podemos nos espelhar para tudo, mas esse alguém não existe. É perigoso, por
exemplo, no Brasil, levar em consideração a opinião política dos melhores
artistas da MPB. Suas músicas são geniais, exprimem grande sensibilidade, mas
suas opiniões políticas...Bom, a maioria deles não estudou economia e suas
opiniões são geradas apenas com base em seus impulsos sentimentais. O mesmo
vale para muitos outros ofícios que costumam ter ampla admiração: Muitos
mestres espirituais são alienados em política. Muitos jogadores de futebol
nunca leram um livro. Por isso, com clamor, dou-lhes meu recado: Saibamos
dissociar as coisas!!! Admiração saudável é admirar uma pessoa por ser genial
no ramo que ela dominou ou pelo o que ela faz de melhor. Outra coisa é achar
que admirar uma pessoa é poder concordar com tudo o que ela diz e faz. Isso é
tolice.
O problema dos pacotes ideológicos da direita
e da esquerda:
Ideologia é o conjunto de ideias que formam
uma filosofia de vida, sendo que nem sempre as ideias contidas na formação de
uma ideologia são refletidas pelo indíviduo que a adotou, este muitas vezes se
tornando apenas um seguidor da agenda de ações programada pelos representantes
regionais desta ideologia e divulgador da respectiva imprensa de apoio desta
ideologia. Isto é o que se chama de “idiota útil”- É o indíviduo que está
engajado em uma agenda ideológica dotada de intenções, sem compreender profundamente
ou sequer estar ciente das ideias que formaram a ideologia e os frutos sociais
que esta ideologia produziu ao longo da história, além de não reconhecer as
intenções reais da agenda, intenções que muitas vezes podem ser contraditórias
à ideologia que a projetou no cenário social.
Pacote ideológico de esquerda:
Entre as ideologias comuns que um esquerdista
comumente adere por influência de seu meio cultural e não porque estão
intrinsecamente ligadas entre si, temos:
-Socialismo/Comunismo
-Feminismo
-Movimento negro
-Indigenismo
-Movimento pró-reforma agrária (MST e outros)
-Ambientalismo
-Guerrilha urbana
-Black Bloc
-Filosofia de alimentação natural
-Sindicalismo
-Movimento Hippie
-Movimento pela legalização das drogas
-Movimento LGBT
-Neo-ateísmo
-Anti-EUA(Imperialismo Yankee como dizem)
-Pró-Cuba de Fidel,
-Fanatismo por Che Guevara
-Pró Irã
-Anti-semitismo(Contra Israel e judeus
sionistas)
-Pró-cotas
-Pró-legalização do aborto
-Pró-PT
-Anti-PSDB
-Anti-PM e militares em geral
-Anti-ruralistas e latifundiários
-Pró-assistencialismo estatal
-Pró-regulamentações na economia e na
indústria(Intervencionismo)
-Anticristianismo
-Pró-libertinagem sexual
-Relativismo moral
-Antiarmamentismo civil
-Marxismo cultural em geral
-Ativismo em defesa dos animais
-Etc, etc, etc
Pacote ideológico de direita:
Já entre as ideologias comuns que um
direitista comumente adere por influência de seu meio cultural e não porque
estão intrinsecamente ligadas entre si, temos:
-Valores conservadores
-Cristianismo
-Nacionalismo
-Patriotismo
-Pró-militarismo
-Pró-armamentismo civil
-Contra a legalização das drogas
-Pudor sexual
-Tradicionalismos em geral
-Antivegetarianos e ativistas defensores de
animais
-Pró testes em animais
-Liberalismo econômico
-Antivandalismo
-Anticotas
-Antiassistencialismo estatal
-Vestuário clássico
-Contra movimento LGBT
-Marcha da família
-Antiambientalismo
-Antifeminismo
-Contra a legalização do aborto
-Etc, etc, etc.
Interesse político nos extratos sociais:
Reparem que a esquerda, segundo a análise de
seu pacote ideológico, agregou mais extratos sociais. Isso confere a esquerda o
maior sucesso atual nas eleições. Não necessariamente as questões levantadas
pelos extratos sociais tem uma relação com o socialismo. Socialismo é,
resumidamente, promover o monopólio dos meios de produção e controle da
economia pelo Estado, inclusive através de corporativismo, mas o que isso tem
a ver com movimento negro, com LGBT, com indigenismo, com movimento hippie,
com legalização do aborto, com legalização das drogas, etc? Essencialmente, não
há relação nenhuma, mas existe um grande interesse politico em agregar
diferentes movimentos e extratos sociais para que os indivíduos pertencentes a
estes extratos e movimentos se sintam representados pela ideologia daquela
política e, assim, havendo a obtenção de votos.
É lamentável que muitas pessoas pensem que só
pela cor de sua pele ou por sua orientação sexual devam se sentir representadas
pela esquerda. Mas isso é um mérito da esquerda política, de ter se aberto ao
diálogo com esses extratos sociais. Então a esquerda é boazinha? Claro que não,
apenas perceberam o eleitorado potencial que haviam nessas minorias, que juntas
compõem uma maioria ou pelo menos uma parte muito significativa dos votos.
O indíviduo deveria pensar independente de
seus interesses pessoais e filosofias de vida para enxergar se realmente ele
deveria se vender a um determinado sistema político que governará todo um país
só porque a imprensa de tal política se diz simpatizar com o fato de ele ser
homossexual, revolucionário, negro, hippie ou pobre porque, mesmo que os
representantes que estão no poder façam gracejos para resolver seus problemas
particulares, algo mundo maior está em jogo: a liberdade e a prosperidade de
toda a nação. É como se um ladrão que fizesse a vítima se simpatizar profundamente
com ele, conseguisse atenuar ou distorcer o efeito do roubo. Outra comparação até
mais apropriada seria de um europeu que ao conquistar um índio, lhe dando algo
que ele desejava, consegue deste a liberdade e a permissão para extrair as
riquezas das terras de seu povo, sendo cúmplice dos problemas sociais que sua
tribo deverá enfrentar no futuro. O mesmo acontece com os políticos populistas
que, com gracejos aos extratos sociais, conseguem o monopólio da economia e dos
meios de produção para a sua casta.
Pois bem, listando todas as ideologias dos
dois pacotes, podemos dizer que muitas ideologias contidas em um mesmo pacote
não tem relação nenhuma entre si. Entretanto é raro de se ver algum esquerdista
ou direitista que não adota à risca todas as ideologias do respectivo pacote.
Será que todos os esquerdistas refletiram e geraram uma opinião idêntica acerca
de todas as ideologias? Igualmente se ocorreu aos direitistas? Isso pra mim soa
muito estranho à natureza humana da diversidade de pensamento. Isto é, ninguém
tem a linha de raciocínio igual para pensar estritamente igual aos outros de
sua tribo. Isto só ocorre quando, infelizmente, não pensamos, mas apenas nos
deixamos levar pelo automatismo de concordar com aqueles que adotaram o mesmo
pacote ideológico, por influência de convívio, do meio cultural e não por
reflexões profundas.
Este fenômeno também ocorre, como já
mencionei pelo conforto que existe em encontrar pessoas iguais a nós. Tanto que,
mesmo que não sejamos iguais, inconscientemente buscamos esta igualdade para
atingir este conforto, à ponto de abandonarmos nossa personalidade genuína e o
hábito de refletir profundamente sobre os fatos. Tudo só para atingir essa
igualdade forçada e confortante. Conforto de pertencer a uma tribo de pessoas
que sempre vão te dar apoio moral, inflar sua vaidade e te fazer companhia em
troca da sua omissão do modo diferente de pensar e da sua fidelidade à agenda
ideológica do pacote.
Por exemplo, em um meio cultural de esquerda,
ouse criticar o feminismo e será “apedrejado”. Em um meio cultural de direita,
ouse defender os animais e será igualmente “apedrejado”. Os grupos de esquerda
se dizem pró-igualdade social e os de direita condenam o multiculturalismo. Em
ambos, a diferença lhes traz um extremo desconforto. Esquerda e direita querem tornar
igual ou separar o diferente, respectivamente, mas nunca aceitar a diferença e
conviver em harmonia com a diversidade, principalmente de opinião. É fácil
aceitar homens, mulheres, gays, lésbicas, negros, brancos, amarelos, cristãos,
ateus, judeus, desde que eles concordem com você. Agora se descordarem... A
intolerância torna a hostilidade inevitável.
Idealistas se dizem pró todo tipo de diversidade,
menos diversidade de opinião.
Não digo que devemos tolerar e agregar tudo,
mas que devemos manter nossa postura racional para refletir acerca do
pensamento incomum, sem hostilidade prévia. Mas em ambos os grupos a
unanimidade de pensamento é uma exigência para a aceitação.
Um amigo meu, Clecio Mendonça, chegando a
esta mesma conclusão, me disse:
“ Se em grupos de esquerda te chamam de
reacionário e em grupos de direita te chamam de esquerdista, é sinal que está
no caminho certo.”
Nós dois somos conservadores e nos identificamos com a política de
liberalismo econômico e, por ser este o pilar maior contra um governo
socialista, nos consideramos cidadãos de direita, embora não incorporamos todo
o pacote ideológico de direita. Muito pelo contrário, mesclamos muitos valores
que são supostamente esquerdistas, embora não vejamos nenhuma relação destes
valores com o socialismo.
Uma prova da intolerância a diversidade de
opinião:
Na época que houve toda aquela polêmica do
resgate dos beagles do Instituto Royal, TODOS os grupos de direita do facebook
que conhecíamos estavam atacando os defensores dos animais e defendendo
arduamente os testes em animais para o bem da nação. Como se tomar conhecimento
e defender modelos alternativos para desenvolvimento de medicamentos fosse um
mandamento de Karl Marx. E, ao debatermos sobre o tema, no grupo “Direita
Política”, de forma educada e embasada, fomos ofendidos e expulsos de imediato
do grupo. Aí posso constatar plenamente que pensar igual é uma regra para os
grupos seguidores dos pacotes. Se você discordar de um ponto, você não faz
parte da turminha.
Você que deseja se libertar desta falsa
igualdade social e assumir sua personalidade única, livre para mesclar,
concordar, discordar de quaisquer ideologias ou ideias contidas nelas, crie o
seu próprio pacote.
Não compre afirmações que não passaram por
sua reflexão, não levante bandeiras que você não sabe a fundo o que representam
e, principalmente, não exija a vontade dos outros.
Realize as suas vontades, viva a sua vida e
expresse suas ideias genuínas. É preciso ter autoestima para assumir o que
você é e evoluir para o que só você pode se tornar. E, por fim, desista de
discutir com “os iguais”.
Adriano Olimpio
Adriano Olimpio
Termino esta reflexão com um trecho do texto
“Histéricos no poder”, escrito pelo Prof.Olavo de Carvalho:

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