segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

O perigo da idolatria e dos pacotes ideológicos



Qual o perigo da idolatria? Bom, certamente, todos nós temos afinidades com personalidades famosas de diferentes áreas de cultura e conhecimento. Personalidades famosas são assim reconhecidas por serem geniais em pelo menos uma atividade e/ou tema. Mas essas pessoas famosas, em geral, não dão opiniões em apenas assuntos e atividades nas quais são geniais.

A consciência não tem humildade, ela não deixa de gerar uma opinião acerca de algum assunto, mesmo sendo ignorante sobre ele. Por exemplo, posso ser bem entendido em política e economia, mas ignorante em espiritualidade e artes. Independente do grau de conhecimento que tenho sobre cada fato , irei gerar uma opinião sobre tudo o que vejo ou ouço. Levando em sequência este exemplo, algumas pessoas iriam inicialmente me admirar como referência de conhecimento em política ou economia e, depois de simpatizarem e até reverenciarem a minha pessoa, podem facilmente levar em consideração minha opinião sobre espiritualidade e artes, o que seria um equívoco da parte delas, já que serão induzidas a concordar com minha opinião por um automatismo criado por situações anteriores e diferentes.

É importante raciocinar, refletir e questionar tudo, mesmo aquilo dito por pessoas que já ganharam sua admiração e confiança. Devido ao tempo escasso de nossas vidas humanas, não é possível ser mestre e se aprofundar em todas as áreas do conhecimento, sendo já difícil e digno de admiração aquele que consegue se tornar um mestre de uma única área do conhecimento. Ter consciência desta limitação humana é necessária para sabermos que é natural que nossos “ídolos”: Líderes morais, mestres espirituais, doutores, professores e gênios autodidatas podem cometer erros grotescos e gerar opiniões ignorantes e superficiais quando opinam fora da área de conhecimento que dominam.

O cérebro processa tudo ao nosso redor, tanto aquilo que temos um contato profundo, quanto aquilo que temos um contato superficial. Em toda as pessoas existem conhecimentos provindos de contato profundo com o objeto de reflexão e “conhecimentos” provindos de contatos superficiais com o objeto reflexão. Aí está a razão para todos nós termos pontos de extrema ignorância: Não conseguimos ter um contato profundo com todas as áreas do saber. Então, mesmo sendo geniais em algumas coisas, seremos medíocres em outras.

Você certamente admira ou passará a admirar intelectualmente alguma pessoa em razão de algum conhecimento profundo  de algum assunto que ela lhe expressar, embora ela também tenha “conhecimentos” superficiais sobre outros assuntos que também eventualmente podem ser expressados.
É muito confortável encontrar alguém em que podemos nos espelhar para tudo, mas esse alguém não existe. É perigoso, por exemplo, no Brasil, levar em consideração a opinião política dos melhores artistas da MPB. Suas músicas são geniais, exprimem grande sensibilidade, mas suas opiniões políticas...Bom, a maioria deles não estudou economia e suas opiniões são geradas apenas com base em seus impulsos sentimentais. O mesmo vale para muitos outros ofícios que costumam ter ampla admiração: Muitos mestres espirituais são alienados em política. Muitos jogadores de futebol nunca leram um livro. Por isso, com clamor, dou-lhes meu recado: Saibamos dissociar as coisas!!! Admiração saudável é admirar uma pessoa por ser genial no ramo que ela dominou ou pelo o que ela faz de melhor. Outra coisa é achar que admirar uma pessoa é poder concordar com tudo o que ela diz e faz. Isso é tolice.

O problema dos pacotes ideológicos da direita e da esquerda:

Ideologia é o conjunto de ideias que formam uma filosofia de vida, sendo que nem sempre as ideias contidas na formação de uma ideologia são refletidas pelo indíviduo que a adotou, este muitas vezes se tornando apenas um seguidor da agenda de ações programada pelos representantes regionais desta ideologia e divulgador da respectiva imprensa de apoio desta ideologia. Isto é o que se chama de “idiota útil”- É o indíviduo que está engajado em uma agenda ideológica dotada de intenções, sem compreender profundamente ou sequer estar ciente das ideias que formaram a ideologia e os frutos sociais que esta ideologia produziu ao longo da história, além de não reconhecer as intenções reais da agenda, intenções que muitas vezes podem ser contraditórias à ideologia que a projetou no cenário social.

Pacote ideológico de esquerda:

Entre as ideologias comuns que um esquerdista comumente adere por influência de seu meio cultural e não porque estão intrinsecamente ligadas entre si, temos:
           
-Socialismo/Comunismo
-Feminismo
-Movimento negro
-Indigenismo
-Movimento pró-reforma agrária (MST e outros)
-Ambientalismo
-Guerrilha urbana
-Black Bloc
-Filosofia de alimentação natural
-Sindicalismo
-Movimento Hippie
-Movimento pela legalização das drogas
-Movimento LGBT
-Neo-ateísmo
-Anti-EUA(Imperialismo Yankee como dizem)
-Pró-Cuba de Fidel,
-Fanatismo por Che Guevara
-Pró Irã
-Anti-semitismo(Contra Israel e judeus sionistas)
-Pró-cotas
-Pró-legalização do aborto
-Pró-PT
-Anti-PSDB
-Anti-PM e militares em geral
-Anti-ruralistas e latifundiários
-Pró-assistencialismo estatal
-Pró-regulamentações na economia e na indústria(Intervencionismo)
-Anticristianismo
-Pró-libertinagem sexual
-Relativismo moral
-Antiarmamentismo civil
-Marxismo cultural em geral
-Ativismo em defesa dos animais
-Etc, etc, etc

Pacote ideológico de direita:

Já entre as ideologias comuns que um direitista comumente adere por influência de seu meio cultural e não porque estão intrinsecamente ligadas entre si, temos:

-Valores conservadores
-Cristianismo
-Nacionalismo
-Patriotismo
-Pró-militarismo
-Pró-armamentismo civil
-Contra a legalização das drogas
-Pudor sexual
-Tradicionalismos em geral
-Antivegetarianos e ativistas defensores de animais
-Pró testes em animais
-Liberalismo econômico
-Antivandalismo
-Anticotas
-Antiassistencialismo estatal
-Vestuário clássico
-Contra movimento LGBT
-Marcha da família
-Antiambientalismo
-Antifeminismo
-Contra a legalização do aborto
-Etc, etc, etc.

Interesse político nos extratos sociais:

Reparem que a esquerda, segundo a análise de seu pacote ideológico, agregou mais extratos sociais. Isso confere a esquerda o maior sucesso atual nas eleições. Não necessariamente as questões levantadas pelos extratos sociais tem uma relação com o socialismo. Socialismo é, resumidamente, promover o monopólio dos meios de produção e controle da economia pelo Estado, inclusive através de corporativismo, mas o que isso tem a ver com movimento negro, com LGBT, com indigenismo, com movimento hippie, com legalização do aborto, com legalização das drogas, etc? Essencialmente, não há relação nenhuma, mas existe um grande interesse politico em agregar diferentes movimentos e extratos sociais para que os indivíduos pertencentes a estes extratos e movimentos se sintam representados pela ideologia daquela política e, assim, havendo a obtenção de votos.

É lamentável que muitas pessoas pensem que só pela cor de sua pele ou por sua orientação sexual devam se sentir representadas pela esquerda. Mas isso é um mérito da esquerda política, de ter se aberto ao diálogo com esses extratos sociais. Então a esquerda é boazinha? Claro que não, apenas perceberam o eleitorado potencial que haviam nessas minorias, que juntas compõem uma maioria ou pelo menos uma parte muito significativa dos votos.

O indíviduo deveria pensar independente de seus interesses pessoais e filosofias de vida para enxergar se realmente ele deveria se vender a um determinado sistema político que governará todo um país só porque a imprensa de tal política se diz simpatizar com o fato de ele ser homossexual, revolucionário, negro, hippie ou pobre porque, mesmo que os representantes que estão no poder façam gracejos para resolver seus problemas particulares, algo mundo maior está em jogo: a liberdade e a prosperidade de toda a nação. É como se um ladrão que fizesse a vítima se simpatizar profundamente com ele, conseguisse atenuar ou distorcer o efeito do roubo. Outra comparação até mais apropriada seria de um europeu que ao conquistar um índio, lhe dando algo que ele desejava, consegue deste a liberdade e a permissão para extrair as riquezas das terras de seu povo, sendo cúmplice dos problemas sociais que sua tribo deverá enfrentar no futuro. O mesmo acontece com os políticos populistas que, com gracejos aos extratos sociais, conseguem o monopólio da economia e dos meios de produção para a sua casta.


Pois bem, listando todas as ideologias dos dois pacotes, podemos dizer que muitas ideologias contidas em um mesmo pacote não tem relação nenhuma entre si. Entretanto é raro de se ver algum esquerdista ou direitista que não adota à risca todas as ideologias do respectivo pacote. Será que todos os esquerdistas refletiram e geraram uma opinião idêntica acerca de todas as ideologias? Igualmente se ocorreu aos direitistas? Isso pra mim soa muito estranho à natureza humana da diversidade de pensamento. Isto é, ninguém tem a linha de raciocínio igual para pensar estritamente igual aos outros de sua tribo. Isto só ocorre quando, infelizmente, não pensamos, mas apenas nos deixamos levar pelo automatismo de concordar com aqueles que adotaram o mesmo pacote ideológico, por influência de convívio, do meio cultural e não por reflexões profundas.

Este fenômeno também ocorre, como já mencionei pelo conforto que existe em encontrar pessoas iguais a nós. Tanto que, mesmo que não sejamos iguais, inconscientemente buscamos esta igualdade para atingir este conforto, à ponto de abandonarmos nossa personalidade genuína e o hábito de refletir profundamente sobre os fatos. Tudo só para atingir essa igualdade forçada e confortante. Conforto de pertencer a uma tribo de pessoas que sempre vão te dar apoio moral, inflar sua vaidade e te fazer companhia em troca da sua omissão do modo diferente de pensar e da sua fidelidade à agenda ideológica do pacote.

Por exemplo, em um meio cultural de esquerda, ouse criticar o feminismo e será “apedrejado”. Em um meio cultural de direita, ouse defender os animais e será igualmente “apedrejado”. Os grupos de esquerda se dizem pró-igualdade social e os de direita condenam o multiculturalismo. Em ambos, a diferença lhes traz um extremo desconforto. Esquerda e direita querem tornar igual ou separar o diferente, respectivamente, mas nunca aceitar a diferença e conviver em harmonia com a diversidade, principalmente de opinião. É fácil aceitar homens, mulheres, gays, lésbicas, negros, brancos, amarelos, cristãos, ateus, judeus, desde que eles concordem com você. Agora se descordarem... A intolerância torna a hostilidade inevitável.
Idealistas se dizem pró todo tipo de diversidade, menos diversidade de opinião.

Não digo que devemos tolerar e agregar tudo, mas que devemos manter nossa postura racional para refletir acerca do pensamento incomum, sem hostilidade prévia. Mas em ambos os grupos a unanimidade de pensamento é uma exigência para a aceitação.

Um amigo meu, Clecio Mendonça, chegando a esta mesma conclusão, me disse:
“ Se em grupos de esquerda te chamam de reacionário e em grupos de direita te chamam de esquerdista, é sinal que está no caminho certo.”
Nós dois somos conservadores e nos identificamos com a política de liberalismo econômico e, por ser este o pilar maior contra um governo socialista, nos consideramos cidadãos de direita, embora não incorporamos todo o pacote ideológico de direita. Muito pelo contrário, mesclamos muitos valores que são supostamente esquerdistas, embora não vejamos nenhuma relação destes valores com o socialismo.

Uma prova da intolerância a diversidade de opinião:
Na época que houve toda aquela polêmica do resgate dos beagles do Instituto Royal, TODOS os grupos de direita do facebook que conhecíamos estavam atacando os defensores dos animais e defendendo arduamente os testes em animais para o bem da nação. Como se tomar conhecimento e defender modelos alternativos para desenvolvimento de medicamentos fosse um mandamento de Karl Marx. E, ao debatermos sobre o tema, no grupo “Direita Política”, de forma educada e embasada, fomos ofendidos e expulsos de imediato do grupo. Aí posso constatar plenamente que pensar igual é uma regra para os grupos seguidores dos pacotes. Se você discordar de um ponto, você não faz parte da turminha.

Você que deseja se libertar desta falsa igualdade social e assumir sua personalidade única, livre para mesclar, concordar, discordar de quaisquer ideologias ou ideias contidas nelas, crie o seu próprio pacote.
Não compre afirmações que não passaram por sua reflexão, não levante bandeiras que você não sabe a fundo o que representam e, principalmente, não exija a vontade dos outros.
Realize as suas vontades, viva a sua vida e expresse suas ideias genuínas. É preciso ter autoestima para assumir o que você é e evoluir para o que só você pode se tornar. E, por fim, desista de discutir com “os iguais”.

Adriano Olimpio


Termino esta reflexão com um trecho do texto “Histéricos no poder”, escrito pelo Prof.Olavo de Carvalho:

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